COMPORTAMENTO E BEM-ESTAR
Cães de Guerra: os heróis de quatro patas que atuam nas Forças Armadas
Treinados desde filhotes, eles ajudam em missões de detecção, proteção, rastreamento e salvamento — e mantêm com seus condutores um vínculo essencial para o sucesso das operações
14 de set. de 2026
8 min de leitura
Redação Pet Mania

Um cão consegue vasculhar uma sala inteira em poucos minutos à procura de explosivos, enquanto uma pessoa levaria quase uma hora para fazer a mesma checagem. Outro é capaz de seguir o rastro de um fugitivo em plena selva. Um terceiro permanece na segurança de um quartel dia e noite. Eles não são cães comuns: são os Cães de Guerra do Exército Brasileiro, preparados durante anos para atuar justamente onde o olfato, a velocidade e o instinto animal podem fazer toda a diferença.
O emprego desses animais é fundamental nas operações militares. Eles conseguem localizar vítimas em escombros, identificar drogas com rapidez, detectar explosivos, rastrear pessoas e auxiliar em diferentes missões. Mas por trás de cada cão existe um processo longo de seleção e preparação, que começa ainda nos primeiros meses de vida.
O que é um Cão de Guerra?
O chamado Cão de Guerra é um animal empregado no ambiente militar para executar atividades que consegue realizar com grande agilidade e precisão.

A utilização de cães em guerras remonta a muitos séculos e está relacionada à lealdade, força e velocidade desses animais. Com o passar do tempo, as técnicas de adestramento evoluíram e a genética também passou a ser selecionada para determinadas finalidades militares.
Atualmente, os Cães de Guerra são empregados por diversos exércitos ao redor do mundo — e felizmente eles deixaram de ser explodidos. No Brasil, o Exército mantém um número crescente desses animais, preparados para diferentes tipos de missão.
Os cães farejadores também são amplamente utilizados pelas Forças Armadas e por forças policiais de vários países para a detecção de entorpecentes em portos, aeroportos e rodovias, graças à capacidade olfativa altamente desenvolvida.
No Brasil, a maior apreensão de drogas da história feita com a ajuda de um cão farejador ocorreu em abril de 2026, quando o cão Hulk, um Pastor Belga Malinois de 4 anos do Batalhão de Ações com Cães (BAC) da Polícia Militar do Rio de Janeiro, ajudou a localizar 48 toneladas de maconha no Complexo da Maré. No episódio, o cão farejou um bunker subterrâneo na comunidade.
VEJA: Cão Hulk ajuda polícia a encontrar bunker com 48 toneladas de maconha no Rio
Como são treinados os cães do Exército Brasileiro?
O Exército trabalha predominantemente com três raças por causa de sua força física, velocidade e inteligência: Pastor Alemão, Pastor Belga Malinois e Rottweiler.
A preparação começa ainda na fase de filhote. Logo após o desmame, por volta dos 40 dias, ou quando chegam às unidades com poucos meses, os animais passam por socialização e pelo chamado imprinting, processo de exposição a diferentes situações para reduzir o medo diante de estímulos variados.
Durante o treinamento, os filhotes podem caminhar sobre garrafas plásticas, plataformas móveis, areia, túneis de pneus e até poças de água. A ideia é fazer com que diferentes superfícies e situações se tornem familiares.
O binômio homem-cão
A relação entre o militar e o animal é tão importante que a própria doutrina estabelece a preferência de um cão para cada condutor. Segundo o Caderno de Instrução de Emprego de Cão de Guerra, ambos devem desenvolver uma relação baseada em dependência e confiança recíprocas.
Na prática, isso significa que o cão passa a ter um único condutor durante sua carreira, responsável por acompanhá-lo e desenvolver seu treinamento. A relação estreita permite que o animal atue de maneira específica, precisa e pontual.
Em quais missões o Cão de Guerra atua?

Esses animais são muito mais do que cães de guarda. Selecionados considerando temperamento, capacidade olfativa, resistência e agressividade controlada, eles assumem funções que ampliam a atuação das tropas.
O Cão de Guerra do Exército atua, na maioria das vezes, junto à Polícia do Exército (PE), responsável por atividades de polícia.
Detecção
Localizam drogas, armas e explosivos. Um cão do Exército pode identificar mais de 11 substâncias diferentes e realizar em cerca de 15 minutos uma varredura de bagagens que levaria aproximadamente 40 minutos para um humano executar.
Guarda e proteção
Atuam na segurança de instalações, entradas táticas e controle de distúrbios.
Busca e salvamento
São empregados na localização de vítimas em escombros e em áreas de difícil acesso.
Patrulha e rastreamento
Prestam apoio em operações, inclusive em regiões de selva, como nas atividades ligadas ao Centro de Instrução de Guerra na Selva, em Manaus.
Nesse contexto, os animais podem realizar policiamento ostensivo na busca por drogas, auxiliando os militares na fiscalização de veículos, malas e outros objetos.
Outra função comum, especialmente no Batalhão da Polícia do Exército de Brasília, é a escolta de autoridades. Nessa atividade, os cães procuram identificar explosivos e pessoas armadas, ajudando a prevenir possíveis atentados contra autoridades.
Os animais também podem atuar em manifestações, auxiliando na contenção de pessoas ao lado de outros recursos utilizados pelas tropas, como balas de borracha e bombas de efeito moral.
Exercício físico e enriquecimento ambiental
O condicionamento físico precisa fazer parte da rotina. Isso pode ocorrer por meio de caminhadas, corridas, pistas de obstáculos brincadeiras com outros cães e atividades relacionadas ao próprio treinamento.
Além do preparo físico, o carinho e a relação afetiva entre condutor e animal são fundamentais para o bom desempenho das funções.
Cuidados veterinários
Os cães possuem acompanhamento veterinário regular e registro individual. A saúde deles segue protocolos específicos como a vermifugação periódica para a prevenção contra parasitas, protegendo os cães contra os principais parasitas internos e externos. Os cães também seguem o calendário de imunização (vacinação) conforme o protocolo veterinário militar.
Os cães recebem alimentação balanceada de acordo com peso, idade e nível de atividade. E água fresca e limpa disponível o tempo todo.
O calor é um enorme problema
As atividades de detecção por odor exigem que o cão mantenha a boca fechada durante o trabalho, o que ajuda a otimizar a identificação dos cheiros.
Esse comportamento, porém, diminui a eliminação de calor durante a expiração. Como os cães não possuem glândulas sudoríparas distribuídas pelo corpo como os seres humanos, a exposição a temperaturas elevadas pode favorecer a insolação, uma emergência veterinária capaz de evoluir para falência múltipla de órgãos e levar o animal à morte.
A insolação acontece quando as altas temperaturas comprometem os mecanismos de termorregulação do organismo.
Por isso, quando os cães são empregados por longos períodos, são indispensáveis pausas para descanso, hidratação e resfriamento.

Além disso, em períodos de temperaturas muito elevadas, os animais devem seguir uma escala de trabalho e descanso que permita períodos curtos de atividade durante os picos de calor.
Para que essas pausas sejam respeitadas sem prejudicar as operações, é necessário contar com uma quantidade adequada de cães que permita estabelecer as escalas.
O material também cita o uso de botas nas patas dianteiras para evitar queimaduras — desde que de forma moderada, para não comprometer a dissipação de calor pela transpiração entre os dedos — e de vestes de refrigeração em locais com pouca sombra.
Quando chega a aposentadoria?
Depois de uma carreira intensa, marcada por treinamento praticamente diário desde a fase de filhote, chega o momento de os cães de guerra deixarem o serviço ativo. A aposentadoria costuma acontecer por volta dos oito anos.
Após a aposentadoria os cães são doados, dando prioridade ao condutor que acompanhou o cão durante anos e com quem foi criado um forte vínculo. A adoção segue critérios rigorosos e exige assinatura de termo de responsabilidade com força de lei, além de acompanhamento posterior. O novo tutor não pode utilizar o animal em serviços de guarda nem em exposições.
No fim, o futuro desses animais depende muito da lealdade construída entre o cão e o ser humano que o acompanhou durante toda a carreira — relação que também ajuda a definir a imagem popular das tropas de elite.





