Entrou na casa o bicho pega: até onde vai a responsabilidade do tutor quando o cachorro ataca uma visita?
Episódio envolvendo cão do ex-presidente reacende debate sobre comportamento territorial, responsabilidade civil e os erros mais comuns que podem transformar proteção em risco

O episódio envolvendo um cão da residência do ex-presidente Jair Bolsonaro, que teriam atacado policiais durante a vigilância do imóvel, trouxe novamente à tona um debate delicado: afinal, quando um cão reage à presença de estranhos dentro de seu território, trata-se apenas de instinto ou existe responsabilidade do tutor?
Longe da polarização que normalmente acompanha casos ligados a figuras públicas, especialistas ouvidos pela reportagem do Pet Mania explicam que situações assim precisam ser analisadas sem romantização e sem demonização dos animais.
Afinal, cães não entendem conceitos jurídicos, ordens judiciais ou funções públicas. Eles reagem ao ambiente, aos estímulos e, principalmente, à forma como foram socializados e conduzidos ao longo da vida.
E é justamente aí que comportamento animal e responsabilidade legal se encontram.
O cão protege o território. A lei cobra prevenção.
Para o advogado especialista em Direito Civil, Dr. João Pedro, o tutor possui responsabilidade ampla sobre os danos causados pelo animal.
Segundo ele, a legislação brasileira adota, em regra, a chamada responsabilidade objetiva.
“O tutor pode ser responsabilizado sempre que houver dano causado pelo animal, seja dano físico, moral ou material. No Direito Civil brasileiro, a responsabilidade do tutor é, em regra, objetiva, ou seja, não depende da comprovação de culpa direta.”
Na prática, isso significa que não basta alegar que o animal “apenas protegeu a casa”.
O advogado explica que o artigo 936 do Código Civil estabelece que o dono ou detentor do animal responde pelos prejuízos causados por ele, salvo em situações específicas, como culpa exclusiva da vítima ou força maior.
Quando o instinto territorial entra em cena
Do ponto de vista comportamental, o cenário é bastante compreensível.

O adestrador Marcos Mendonça, da Top Cão Adestramento, explica que o comportamento territorial é natural em muitos cães e pode se manifestar de diferentes formas.
“O comportamento territorial é algo instintivo que se manifesta de maneira mais veemente em alguns cães e pode estar ligado a posse somente ou medo e se manifestar através de rosnado, latido, rigidez, mordida e vigilância constante do espaço.”
Ou seja: o animal não está “planejando atacar”. Ele apenas interpreta determinadas situações como ameaça.
E isso pode acontecer com qualquer raça.
O ponto onde os especialistas se encontram: previsibilidade
Embora as análises partam de áreas diferentes, advogado e adestrador convergem em um ponto essencial: previsibilidade.
Para a Justiça, um dos fatores mais importantes é saber se o tutor poderia prever o risco.
Já para o comportamento animal, os cães normalmente demonstram sinais antes de chegar à agressão.
“Sim, o cão demonstra proteger o espaço das formas mencionadas anteriormente mas com menos intensidade na maioria das vezes no início”, explica Marcos Mendonça.
Do lado jurídico, Dr. João Pedro reforça:
“A Justiça avalia o contexto completo: histórico do animal, medidas de contenção, comportamento anterior, ambiente, presença de advertências e atitude do tutor.”
Ou seja: quando existem sinais ignorados, o episódio deixa de ser visto apenas como acidente.
O erro que muitos tutores cometem sem perceber
Segundo Marcos Mendonça, um dos maiores problemas está justamente no comportamento humano diante das primeiras reações territoriais do cão.
“O principal erro que os tutores cometem é reforçar esses comportamentos de agressividade.”
Ele explica que muitos tutores acabam estimulando involuntariamente o comportamento defensivo.
“O tutor chega no ambiente, o cachorro está latindo, claramente mostrando para o tutor que não quer a presença dele ali. E o tutor fica falando com o cachorro, conversando com o cachorro. Às vezes até dá bronca, mas o cachorro não entende que é bronca e acaba reforçando esse comportamento.”
Outro problema comum, segundo o especialista, é a falta de socialização adequada durante os primeiros meses de vida.
Socialização: a fase que pode mudar toda a vida do cão
Marcos explica que o período entre aproximadamente 30 dias até 5 meses de idade é fundamental para ensinar o cão a lidar com o mundo de forma equilibrada.

“É socializar o cão o máximo possível. Apresenta o mundo de uma forma positiva para o cão.”
Ele destaca que o filhote precisa ser exposto gradualmente a:
pessoas
carros
motos
sons
outros cães
ambientes diferentes
Sempre associando essas experiências a estímulos positivos, como comida, carinho e brincadeiras.
“Passou uma moto, dá comida, passou carro, dá comida. Se não tiver comida na hora, dá carinho.”
Segundo ele, cães que crescem isolados ou excessivamente expostos ao portão da casa podem desenvolver forte comportamento de posse territorial.
“O cão tendo contato com o portão desde filhote, a chance dele criar posse pelo território é grande.”
E quando o caso envolve policiais ou agentes públicos?
No campo jurídico, a situação ganha ainda mais peso.
Dr. João Pedro explica que a Justiça costuma analisar esses casos com maior rigor quando os agentes estão no exercício legítimo da função.
“A análise costuma ser mais rigorosa quando o agente público estava no exercício regular da função, como policiais, oficiais de Justiça, agentes de saúde ou bombeiros.”
Nessas situações, a Justiça avalia se o tutor adotou medidas adequadas para evitar riscos previsíveis.
E isso inclui:
contenção correta do animal
limitação de acesso
controle ambiental
prevenção de contato com terceiros
“Mas o cachorro estava dentro da propriedade”
Essa é uma das justificativas mais comuns em debates sobre ataques envolvendo cães.
Mas o advogado esclarece que isso não elimina automaticamente a responsabilidade.
“O fato de o animal estar dentro da residência pode fortalecer a tese de legítima proteção territorial do cão, mas não elimina automaticamente a responsabilidade civil do tutor.”
Segundo ele, a Justiça diferencia completamente:
um invasor
um visitante autorizado
um prestador de serviço
um policial em serviço
um oficial de Justiça
Cada situação recebe análise própria.
O histórico do animal pode pesar contra o tutor
Outro ponto importante destacado pelo especialista em Direito Civil é que episódios anteriores de agressividade podem influenciar diretamente uma ação judicial.
“Se ficar demonstrado que o tutor já conhecia comportamentos perigosos anteriores e não adotou medidas preventivas adequadas, isso pode reforçar a caracterização de negligência.”
Em situações mais graves, isso pode inclusive gerar repercussões criminais.
Nem todo ataque gera ferimentos graves — mas ainda pode gerar processo
Muitas pessoas acreditam que só existe responsabilização quando há mordidas severas. Mas isso não é verdade.
O advogado explica que quedas, traumas psicológicos, sustos e danos emocionais também podem gerar obrigação de indenizar.
“Se uma pessoa cai ao fugir do animal, sofre trauma emocional ou precisa de atendimento médico em razão do susto, por exemplo, já pode haver obrigação de indenizar.”
Educação e prevenção ainda são o melhor caminho
Para o adestrador, Marcos Mendonça, a grande lição de casos como esse não é demonizar cães territoriais, mas entender que prevenção começa muito antes de qualquer incidente.
Socialização correta, manejo adequado e orientação profissional podem reduzir drasticamente situações de risco.
“Todo mundo que chegar no espaço do filhote deve procurar só proporcionar situações positivas.”
No fim, tanto a lei quanto o comportamento animal chegam à mesma conclusão:
O cão reage ao ambiente que lhe foi apresentado — e cabe ao tutor garantir que esse ambiente seja seguro para todos.
