COMPORTAMENTO E BEM-ESTAR
Quando um cão ataca alguém que ele conhece: especialista explica o que pode estar por trás de um ataque
Ataque que matou médica-veterinária no canil do Senado chama atenção para sinais de estresse, medo e dor que podem anteceder uma reação agressiva
22 de ago. de 2026
7 min de leitura
Redação Pet Mania e Renato Telles

A morte da médica-veterinária Vitória Valle de Oliveira Pinha, de 36 anos, quatro dias após ser atacada por um cão do Serviço de Cinotecnia do Senado Federal, em Brasília, trouxe novamente à discussão uma pergunta que costuma causar perplexidade: por que um cão pode atacar alguém que conhece e com quem mantém contato frequente?
Vitória foi atacada na manhã de 18 de agosto, enquanto realizava atendimento no canil do Senado. O animal envolvido é um pastor-belga-malinois, utilizado pelo órgão em atividades de segurança. A profissional sofreu graves ferimentos no pescoço, chegou a sofrer uma parada cardiorrespiratória e permaneceu internada em estado grave até morrer na madrugada deste sábado (22). As circunstâncias do episódio continuam sendo investigadas pela Polícia Civil.
O caso não permite, neste momento, apontar o que teria desencadeado a reação do animal. No entanto, situações como essa ajudam a chamar atenção para um aspecto importante do comportamento canino: uma pessoa ser conhecida pelo cão não significa que determinadas circunstâncias não possam provocar medo, dor, estresse ou uma resposta agressiva.
Segundo o adestrador profissional Renato de Oliveira Telles, que atua há mais de 30 anos na área, ataques que parecem acontecer "do nada" são considerados raros. Na avaliação do especialista, geralmente existem sinais prévios que podem passar despercebidos.
Entre eles estão alterações na postura corporal, como o posicionamento das orelhas, a cauda rígida, o corpo retraído, o olhar fixo, além de rosnados e pelos eriçados.
"Sim é possível prever um ataque de um cão, posicionamento das orelhas, posicionamento da cauda rígida, corpo retirado, olhar fixo, rosnados, pelos arrepiados", explica Telles.
Dor também pode provocar uma reação

Uma das situações capazes de desencadear uma resposta agressiva é a dor. De acordo com o adestrador, determinados procedimentos de manejo podem gerar desconforto quando o animal apresenta alguma condição dolorosa ou sensibilidade em uma região específica do corpo.
Ele cita como exemplos problemas como displasia severa ou inflamações e infecções nas orelhas. Nesses casos, tocar, pressionar ou manipular uma região dolorida pode provocar uma reação defensiva.
"O cão quando reage com agressividade a dor geralmente é um ataque rápido para afastar o agente causador da dor", explica.
Isso não significa, naturalmente, que uma reação desse tipo esteja relacionada ao episódio ocorrido no Senado. Até que a investigação esclareça as circunstâncias do ataque, qualquer tentativa de apontar uma causa específica seria apenas especulação.
Medo e insegurança também podem estar envolvidos
Outro fator mencionado pelo especialista é o medo.
Cães com temperamento mais inseguro podem reagir de forma agressiva quando se sentem ameaçados ou acuados. Nesse contexto, a agressão pode funcionar como uma tentativa de afastar aquilo que o animal identifica como uma fonte de insegurança.
Segundo Telles, cães com esse perfil podem avançar contra pessoas quando a aproximação é interpretada como uma ameaça.
Por isso, um animal considerado dócil em determinadas situações não necessariamente apresentará a mesma resposta diante de um contexto diferente. O comportamento também pode variar conforme o ambiente, a situação, o manejo e o estado físico e emocional do cão.
Um cão "manso" pode atacar?

A ideia de que um cão jamais apresentará comportamento agressivo porque sempre foi considerado manso pode ser perigosa.
Para Renato Telles, mudanças reais de comportamento não costumam acontecer simplesmente "de uma hora para outra". Na prática, alterações podem estar relacionadas a situações específicas, desconforto, medo, dor ou outros fatores que antecedem a reação.
Por esse motivo, observar o comportamento do animal e reconhecer sinais de desconforto é uma das principais formas de prevenção.
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Em outra matéria, o Pet Mania abordou os fatores que podem estar por trás de ataques contra os próprios tutores — uma situação diferente, mas que também mostra como o comportamento canino pode mudar de acordo com o contexto e as circunstâncias.
O ambiente também influencia

O ambiente em que um cão vive pode ter influência sobre seu comportamento.
De acordo com Telles, um cão inseguro criado em um ambiente marcado por discussões frequentes e gritos, por exemplo, pode ter determinadas características comportamentais reforçadas.
Isso reforça a importância de observar o animal não apenas isoladamente, mas dentro do contexto em que vive, levando em consideração rotina, manejo, estímulos, interações e experiências anteriores.
Conhecer o cão não significa ignorar seus sinais
Um dos principais ensinamentos que casos de agressão envolvendo pessoas conhecidas deixam é que familiaridade não deve ser confundida com ausência absoluta de risco.
Um cão pode reconhecer e conviver diariamente com uma pessoa e, ainda assim, reagir de maneira diferente diante de dor, medo, estresse, frustração ou determinada situação de manejo.
Por isso, mesmo pessoas acostumadas a lidar com determinado animal precisam permanecer atentas à comunicação corporal apresentada pelo cão.
O fato de alguém ser tutor, familiar, veterinário, tratador ou profissional responsável pelo animal não elimina a necessidade de respeitar os limites comportamentais demonstrados naquele momento.
O caso do Senado
Vitória Valle de Oliveira Pinha trabalhava como médica-veterinária terceirizada responsável pelo atendimento dos cães do Serviço de Cinotecnia do Senado. Em 18 de agosto, ela foi atacada dentro do canil por um pastor-belga-malinois.

O animal foi imediatamente afastado das atividades operacionais, passou a ser mantido em observação e deverá passar por exames. A Polícia Civil investiga as circunstâncias do episódio para esclarecer a dinâmica do ataque.
A morte da profissional, aos 36 anos, foi confirmada neste sábado (22).
Até o momento, não há conclusão pública sobre o que provocou a reação do cão.





