Quando o melhor amigo ataca: especialista explica o que pode levar um cão a atacar o próprio tutor
Caso envolvendo um Pit Bull no Maranhão reacendeu debates sobre comportamento canino, guarda responsável e os sinais que muitos tutores não percebem antes de um ataque

Em abril, a morte de uma mulher após ser supostamente atacada pelo próprio Pit bull dentro de casa, no Maranhão, chocou o país e levantou uma série de debates nas redes sociais. Afinal, um cão pode realmente atacar “do nada”? Existe uma raça naturalmente agressiva? Ou o problema está na forma como esses animais são criados e conduzidos?
Enquanto o caso segue cercado de investigações e questionamentos, especialistas alertam que situações como essa dificilmente acontecem sem qualquer sinal prévio. O episódio reacendeu discussões sobre comportamento canino, manejo inadequado e a importância da guarda responsável — especialmente em cães de médio e grande porte.
Para entender melhor o assunto, o Pet Mania conversou com o adestrador Renato de Oliveira Telles, que atua há mais de 30 anos na área de comportamento e adestramento canino.
Ataques “do nada” são muito raros
Segundo Renato, apesar do impacto causado por casos assim, ataques sem qualquer aviso prévio são muito incomuns.
“Embora possa acontecer ataques de cães, do nada são muito raros, geralmente os cães nos dão avisos prévios”, explica.
O especialista afirma que muitos tutores não conseguem identificar sinais importantes emitidos pelos cães antes de uma reação agressiva.
Entre os principais sinais de alerta estão:
orelhas em posição rígida;
cauda endurecida;
olhar fixo;
corpo retraído;
rosnados;
pelos arrepiados.
“Sim é possível prever um ataque de um cão”, afirma Renato.
O banho pode virar um gatilho?
No caso do Maranhão, as primeiras informações apontam que o ataque teria ocorrido durante o banho do animal. Segundo Renato, situações assim realmente podem funcionar como gatilho em determinados contextos.

“Sim o banho pode ser um gatilho, pois tem determinados cães que sentem incômodo de serem tocados em algumas partes.”
O adestrador explica que dores silenciosas, muitas vezes desconhecidas pelos tutores, podem desencadear reações defensivas.
“Às vezes por dor causada por uma displasia severa, por exemplo, ao esfregar o cão naquela área pode causar dor e ele reagir com um ataque.”
Problemas nas orelhas também podem provocar reações agressivas.
“Se você vai esfregar na região das orelhas e o cão estiver com uma otite pode causar dor e o cão reagir.”

Um cão “manso” pode mudar de repente?
Essa é uma das perguntas mais frequentes sempre que ocorre um ataque grave envolvendo cães. Para Renato, mudanças repentinas de comportamento sem nenhum histórico anterior não costumam ser comuns.
“Geralmente não. O cão não muda de comportamento de uma hora para outra.”
Segundo ele, diversos fatores podem contribuir para que um cão ataque até mesmo o próprio tutor.
“Diversos fatores podem desencadear o ataque de um cão ao seu tutor.”
Entre eles estão:
medo,
dor;
insegurança;
agressões sofridas;
disputa por liderança;
manejo inadequado.
Agressividade não é tudo igual
Renato explicou que existem diferentes tipos de agressividade canina — e entender isso é essencial para prevenir acidentes.
Segundo ele, cães inseguros podem reagir por medo para afastar aquilo que consideram uma ameaça.

“Os cães de temperamento inseguro reagem à aproximação de pessoas avançando para afastá-las.”
Já a agressividade causada por dor costuma ser mais imediata.
“O cão quando reage com agressividade à dor geralmente é um ataque rápido para afastar o agente causador da dor.”
Há ainda os casos ligados à dominância e disputa por liderança.
“Geralmente o tutor tenta impor a sua liderança, o que gera uma disputa pela liderança.”
A raça influencia?
O caso também reacendeu o eterno debate sobre pitbulls. Para Renato, é preciso separar mito de realidade.
Segundo ele, a raça costuma apresentar mais agressividade com outros animais, mas isso não significa que todo pitbull seja inevitavelmente perigoso.
“Geralmente os Pit Bulls são mais agressivos com outros animais.”
O adestrador destaca que cães da raça precisam de estímulo físico e mental constante.
“São cães que precisam de muita atividade física para não desencadear desvios de comportamento.”
Ao mesmo tempo, Renato reconhece que ataques envolvendo pitbulls tendem a ser mais graves devido à estrutura física do animal.
“O ataque de um Pit Bull é muito poderoso pois são cães de uma compleição física privilegiada.”
Segundo ele, a força da mordida e a determinação do animal tornam esse tipo de ocorrência potencialmente mais severa quando comparada a outras raças.
O perigo da humanização
Outro ponto destacado pelo especialista é a chamada “humanização” dos cães — prática cada vez mais comum dentro das casas.
Embora muitos tutores associem isso ao carinho, Renato alerta que transformar o cão em um “ser humano de quatro patas” pode causar problemas comportamentais sérios.
“Humanizar o cão é sim um problema sério.”
Segundo ele, quando limites deixam de existir, o animal pode começar a desenvolver comportamentos dominantes.
“Adequar o cão a um comportamento que é contrário à sua natureza pode causar diversos desvios de comportamento.”
Entre eles estão a possessividade, a imposição de vontades, dominância sobre objetos e agressividade por frustração.
A prevenção começa antes mesmo do cão chegar em casa
Para o adestrador, um dos maiores erros dos tutores é buscar ajuda apenas depois que os problemas aparecem.

“Antes de adquirir um cão você deve recorrer à ajuda profissional.”
Segundo ele, até mesmo a escolha da raça deve considerar o perfil da família e da rotina da casa.
Renato afirma ainda que cães da mesma ninhada podem possuir temperamentos completamente diferentes.
“Tem filhotes mais calmos, filhotes médios e filhotes muito agitados.”
Por isso, acompanhamento profissional desde cedo pode fazer diferença no convívio futuro.
Guarda responsável vai além do amor
Casos como o ocorrido no Maranhão reacendem um debate importante: amar um animal não substitui conhecimento, manejo e responsabilidade.
Ataques graves continuam sendo raros diante da enorme quantidade de cães que convivem diariamente com famílias sem qualquer incidente. Ainda assim, especialistas alertam que ignorar sinais comportamentais, negligenciar treinamento ou acreditar que “o amor resolve tudo” pode abrir espaço para situações perigosas.
Mais do que demonizar ou romantizar raças, o episódio serve como alerta para a importância da informação, do acompanhamento profissional e da construção de uma convivência segura — tanto para os tutores quanto para os próprios animais.
