
A grande chave por trás da impressionante habilidade de certas aves em reproduzir a voz humana está na siringe. Posicionado estrategicamente entre a traqueia e os brônquios, esse órgão desempenha um papel equivalente à laringe dos seres humanos, viabilizando a emissão de sons articulados.
Segundo o biólogo Valdemar Solis, cada espécie possui uma siringe específica, que as possibilita emitir as vocalizações (cantos e chamados) típicos de sua espécie. Alguns grupos de aves, como os pássaros canoros (curió, sanhaçu e coleirinho, por exemplo), os beija-flores e os psitacídeos (papagaios, periquitos, araras) apresentam a capacidade de aprendizado vocal — ou seja, eles modificam e refinam seus sons com base no que escutam durante o desenvolvimento. Contudo, enquanto beija-flores e pássaros canoros usam essa habilidade para aperfeiçoar seus cantos nativos (da sua própria espécie), os psitacídeos vão além e conseguem replicar perfeitamente sons e vocalizações humanas.
Mas, dentre todos os bichos, o papagaio parece ser aquele que domina a técnica da imitação, dada a perfeição com que reproduz falas do nosso cotidiano. Uma das respostas está na configuração de estruturas específicas no cérebro, responsáveis pelo aprendizado.
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Aquelas aves com capacidade de aprendizado vocal apresentam um circuito cerebral de aprendizado, composto por estruturas neuronais que as fazem aprender — sendo que os papagaios possuem um sistema de "circuitos duplos" que os torna os reis do mimetismo.
Eles falam mas não entendem

Apesar dessa facilidade anatômica e neurológica, é importante frisar que se trata de uma simulação acústica, e não de fala no sentido estrito da palavra. Os animais repetem fonemas, mas não processam o idioma com a mesma linguagem semântica que nós.
“Quando um papagaio vocaliza, por exemplo, que ‘gosta do tutor’, não necessariamente ele está se declarando, já que eles não entendem as palavras dessa forma”, pondera Solis.
Entretanto, essa arte do mimetismo não é exclusiva dos papagaios. Espécies como o estorninho-comum, corvos e psitacídeos australianos (como cacatuas e ringnecks) também dão um show de sonoridades.
Eles não entendem o significado das palavras, mas sim, o potencial delas

Mesmo sem o entendimento gramatical humano, esses animais compreendem o impacto social do som. Por viverem em bando, perceber que uma frase gera reação no grupo ajuda a aproximá-los das pessoas. Com treino dedicado, é possível fazê-los associar termos a elementos reais.
Essa associação depende diretamente do ambiente. Se um papagaio escuta "bom dia" sistematicamente pelas manhãs, ele vincula a expressão àquela rotina e passa a reproduzi-la no horário certo, demonstrando um processamento contextual de informações.
Por que eles fazem as imitações?

A convivência em comunidade é a força motriz desse comportamento. Na natureza, as aves usam suas vozes para avisar sobre predadores, localizar comida e fortalecer alianças.
“A imitação de sons pode auxiliar nessas relações sociais, ajudando-os até a estreitar laços”, diz Solis. Quando criados em cativeiro, a falta dessa interação natural gera frustração; por isso, a ave passa a encarar a família humana como seu novo bando. Para tentar se integrar ao grupo, passa a replicar ruídos do lar, tais como toques de telefone, latidos de cães e frases corriqueiras.
O fator recompensa encerra o ciclo desse aprendizado através do condicionamento. “É um tipo de condicionamento no qual o papagaio produz um som repetido e tem um retorno positivo. Neste caso, ao falar o nome de seu tutor, ele poderá receber um carinho ou alimento, e com isso, faria esta associação e passaria a 'chamar' seu tutor para este fim”, esclarece Solis.
Enquanto isso, em seu habitat natural e de vida livre, os papagaios gastam essa mesma inteligência vocal imitando ruídos da floresta e de companheiros da sua espécie para manter a matilha sempre unida.








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