
Carregar um filhote sem vida por 90 dias não tem explicação puramente prática. Esse cuidado prolongado, observado em macacas, é um dos comportamentos que levam cientistas a perguntar se os animais sentem luto como nós. A pesquisa em espécies como macacos, elefantes e até peixes-bois ainda não tem resposta definitiva, mas já mostra que a relação dos bichos com a morte é bem mais complexa do que se imaginava.
O que os cientistas observam

Ver uma mãe macaca carregar o filhote sem vida por dias, ou elefantes “velando” corpos com folhas, sugere algo além do instinto.
Primatologistas notam que esse apego persiste mesmo quando a prática atrapalha a sobrevivência da mãe. É um hábito que intriga.
90 dias
é o tempo no qual algumas mães continuam a transportar o corpo do filhote
A pesquisadora Irene Delval chama esse comportamento de “protoluto”. Em entrevista ao Jornal da USP, ela explicou:
“Há uma dissonância cognitiva por conta do vínculo de apego”, Irene Delval, pesquisadora, ao Jornal da USP
Na prática, o laço emocional continua forte mesmo depois da perda.
Luto de bicho é igual ao nosso?

Não exatamente. O luto humano inclui choro e rituais, enquanto os animais reagem de outras formas: macacos podem catar o corpo ou vocalizar de modo distinto depois da perda. As manifestações são variadas.
E dá para dizer que eles sofrem? Para Irene, a cautela é necessária: “Não podemos afirmar que seja sofrimento, seria uma interpretação”
Mesmo assim, sintomas como estresse e perda de apetite já foram notados em primatas enlutados.
Atenção ao “efeito Disney”

Cientistas alertam sobre o risco de projetar emoções humanas nos animais. Mostrar os dentes em macacos, por exemplo, não é sorriso, é ameaça. Por outro lado, ignorar as semelhanças evolutivas também é um erro, já que compartilhamos traços com esses bichos. O segredo é o equilíbrio na análise.
A ciência segue investigando
As respostas estão sendo buscadas na tanatologia comparada, área que estuda o comportamento diante da morte em diversas espécies. A relação dos animais com a morte ainda guarda muitos segredos a revelar.








