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Mães de pet: tutoras mostram que o amor de mãe não tem espécie

Entre cuidados, rotina, afeto e responsabilidade, o conceito de “mãe de pet” cresce no Brasil e revela relações profundas entre humanos e animais

Em pleno mês das mães, um outro tipo de maternidade ganha espaço dentro das casas, das rotinas e até das emoções: a das chamadas “mães de pet”. Mulheres que organizam a vida em torno do bem-estar dos seus animais, adaptam viagens, mudam de casa, enfrentam doenças ao lado deles e encontram nesses companheiros uma forma única de afeto, apoio e presença.


Tem quem ache exagero. Tem quem critique. Mas basta observar a rotina de muitas tutoras para perceber que existe um vínculo real, intenso e transformador.


O conceito de “mãe de pet” deixou há tempos de ser apenas uma expressão carinhosa da internet. Hoje, reflete mudanças sociais profundas e uma nova configuração familiar, onde cães e gatos passaram a ocupar um lugar afetivo dentro dos lares.


Segundo levantamento da ABINPET (Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação), o Brasil possui cerca de 160 milhões de animais de estimação, número que supera a população de crianças de até 12 anos no país. Durante a pandemia, a adoção de animais também cresceu significativamente, impulsionada pela busca por companhia e suporte emocional em meio ao isolamento.


E, para muitas pessoas, esse laço vai muito além da companhia.


“Eles cuidaram de mim durante a doença toda”

A relação da administradora Ana Carolina Mendes com seus gatos Zeca, Lili e Fumaça nasceu durante a pandemia, mas ganhou uma dimensão ainda maior quando ela recebeu um diagnóstico devastador: câncer em estágio 4 no intestino e no fígado.


Durante o tratamento, os gatos se tornaram presença constante nos dias mais difíceis.


“Durante todo o meu tratamento a Lili sempre ficou deitada dormindo encostada no meu fígado que estava tratando. Quando eu estava em quimioterapia eles não saíam de perto de mim um minuto”, conta.

Ana lembra que chegou a dormir no chão ao lado dos animais enquanto fazia tratamento quimioterápico. E quando precisou passar por um transplante de fígado, ouviu de um médico que talvez precisasse se desfazer dos gatos por se tornar imunossuprimida.


A resposta veio em meio a uma crise emocional no hospital:

“Eu falei que sem os meus gatos eu não ficava. Que eu nunca ia me desfazer dos meus gatos.”

Ela preferiu deixar os gatos em casa e ficar isolada por três meses em outro local, longe deles. Mas, quando voltou para casa, percebeu algo que jamais esqueceu.

“Parecia que eles sabiam. Eles se aproximavam aos poucos. Eles não subiam na minha cama. Aos pouquinhos eles voltaram a chegar perto de mim.”

Hoje, Ana define os três gatos como “anjos enviados por Deus”.

“Eles são meus salvadores. Mantiveram minha sanidade mental e emocional durante a pandemia e cuidaram de mim literalmente.”

Companhia que transforma rotina e cura silenciosamente

Para Claudia Nogueira Pietroluongo, a cachorra Leona Ayla D’albuque entrou em sua vida em um momento delicado: o luto pela perda de uma companheira de 17 anos.


“A Ayla veio para me ajudar no luto de uma outra cachorrinha que morreu com 17 anos.”

Desde então, a rotina ganhou novos hábitos — inclusive mais saudáveis.

“Saímos para caminhar na praia toda manhã. Mesmo quando estou com preguiça me obrigo a ir por causa dela.”

Claudia conta que Ayla também foi essencial em períodos de depressão.

“Parecia que sentia que eu não estava bem e me cercava de cuidados, não saía do meu lado.”

O impacto foi tão profundo que até os compromissos pessoais passaram a ser pensados considerando o bem-estar da cachorra.

“Sempre me programo pensando: com quem vou deixar a Ayla? Vou ficar muito tempo fora? Ela terá suporte?”

Ainda assim, Claudia faz questão de destacar que carinho também exige equilíbrio.

“Sempre cuidei muito, porém sempre a deixei ser cachorro, correr, se sujar, brincar, roer, sem mimimi.”

“Com ela do meu lado não existe solidão”

A história da empresária Liana Sampaio com a sua cadela Katniss Sampaio começou em 2014, quando recebeu a cadelinha de presente ainda filhote.


“Era um dia frio e quando peguei no colo, ela entrou no meu casaco. Ali eu vi que minha vida mudaria.”

Mas o episódio mais marcante da relação aconteceu anos depois, em um hospital, após Liana sofrer um mal súbito e entrar em coma durante uma viagem ao Recife.

Quando despertou, uma das primeiras coisas que pediu foi para ver Katniss.

“A assistente social do hospital agilizou o processo para a visita pet. Neste dia, minha pressão que estava alterada todos os dias normalizou e eu me senti melhor. A equipe do plantão se emocionou com nossa conexão.”

Na rotina agitada do dia a dia, Liana consegue equilibrar carinho e responsabilidade:

“Trabalho muito e sou muito ocupada, mas todos os dias tiro um pouco do meu tempo para estar com ela, jogar bolinha que ela adora e todos os finais de semana passeio com ela”.

Mesmo ouvindo críticas por levar a cachorra em praticamente todas as viagens, ela não abre mão da companhia da pet: “Não quero me separar dela nem por um dia.”



Quando o assunto é “humanização de pets”, Liana compartilha a sua opinião:

“Tem gente que bate, coloca de castigo, grita e isso sim é humanizar e da pior forma. Não se bate em crianças ou animais, mas ainda pior é achar que um pet é capaz de entender a agressão”.

Ela ainda revela como adestrou e educou Katniss:

“Sempre ensinei tudo na base do reforço positivo e ela faz as necessidades no lugar certo, entende vários comandos e é muito inteligente”.

Como uma boa “mãe de pet”, a sua maior preocupação é poder fazer o possível para prolongar uma vida saudável para ela: “Deixo as vacinas em dia e ela tem acompanhamento veterinário regularmente. Ela viaja sempre comigo na cabine do avião”.

Para Liana, o sentimento cabe em uma única palavra:

“Amor. Com ela do meu lado não existe solidão e todas as dificuldades ficam mais leves.”

O que explica vínculos tão intensos?

Segundo a psicóloga Isabel Araujo, o crescimento do número de pessoas que se identificam como mães de pet está diretamente ligado às mudanças sociais das últimas décadas.



“Adiamento da maternidade, novos arranjos familiares, vida urbana mais solitária e busca por vínculos afetivos mais estáveis” ajudam a explicar esse fenômeno.


Ela explica que os animais despertam conexões emocionais intensas porque oferecem “afeto direto, não verbal e sem julgamento”, ativando mecanismos biológicos ligados ao vínculo e à sensação de pertencimento.


A ciência também ajuda a entender isso. Um estudo publicado pela revista Science, conduzido pela Universidade Azabu, no Japão, mostrou que o contato visual e a troca de carinho entre tutores e cães estimulam a liberação de ocitocina — conhecido como “hormônio do amor” — a mesma substância associada ao vínculo entre mães e bebês.


Além da conexão emocional, os pets também podem impactar positivamente a saúde mental.

“Redução do estresse, sensação de companhia, melhora do humor, aumento do senso de propósito e organização da rotina” estão entre os principais benefícios apontados pela psicóloga.


Mas ela faz um alerta delicado: amor também precisa vir acompanhado de equilíbrio. “Vínculo não é posse, é responsabilidade. O pet precisa ser compreendido como animal, não como extensão emocional.”


Entre carinho e humanização: onde está o limite?

Com os pets ocupando cada vez mais espaço dentro das famílias, também cresce o debate sobre a chamada “humanização excessiva”.



Para o adestrador Leonardo Fernandes Drumond, carinho e afeto são fundamentais — desde que respeitem a natureza do animal.


“Você pode até amar como um filho, mas não deixe que isso se torne uma bengala emocional”, orienta.


Segundo ele, muitos comportamentos vistos como demonstrações de amor podem acabar gerando insegurança e dependência emocional nos cães. “O cão que segue o dono por todos os cômodos muitas vezes é visto como prova de amor. Mas isso pode gerar super dependência.”


Leonardo explica que cães precisam exercer comportamentos naturais, como farejar, correr, explorar ambientes e interagir. “Deixar o cão ser cão” ainda é uma das práticas mais importantes para o bem-estar animal.


Ele também destaca que muitos problemas comportamentais cresceram após a pandemia, quando diversos tutores passaram praticamente o tempo todo ao lado dos animais. “Os cães entraram em conflito quando os tutores voltaram às rotinas normais. Muitos desenvolveram ansiedade de separação.”


Ainda assim, o especialista reforça que não se trata de diminuir o vínculo emocional entre tutores e pets, mas de construir uma relação saudável para ambos. “Você pode sim e deve dar afeto ao seu cão. Mas o exagero é ruim em qualquer caso.”


Mais do que um rótulo

Seja para quem concorda com o termo “mãe de pet” ou para quem ainda torce o nariz para a expressão, uma coisa parece inegável: os animais passaram a ocupar um espaço emocional profundo na vida de milhões de brasileiros.


Eles dividem camas, rotinas, caminhadas, viagens, tratamentos médicos, momentos de luto e até recomeços.


E talvez o ponto principal nem esteja no nome dado a essa relação.


Mas na forma como ela transforma silenciosamente a vida de quem aprende, todos os dias, que amor também pode vir em quatro patas, pelos espalhados pela casa e uma companhia que, muitas vezes, entende sem precisar de uma única palavra.

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