COMPORTAMENTO E BEM-ESTAR
Macacos adotando animais de outras espécies: a pesquisa de Oxford que reescreve a história dos pets
Estudo analisou 427 interações entre primatas e outras espécies e encontrou brincadeiras, catação, cuidados e até adoção — comportamentos que podem revelar as raízes evolutivas mais antigas da relação entre humanos e animais de estimação
12 de set. de 2026
8 min de leitura
Redação Pet Mania

Ter um animal de outra espécie por perto, oferecer comida, protegê-lo e estabelecer com ele uma relação de companhia parece, à primeira vista, algo exclusivamente humano. Mas uma revisão sistemática conduzida por pesquisadores liderados pela Universidade de Oxford coloca essa ideia sob nova perspectiva — e os resultados são surpreendentes.
Ao examinar 427 registros de interações entre primatas e animais de outras espécies, os cientistas encontraram episódios de brincadeiras, catação, contato físico, partilha de alimentos, carregamento e cuidados ativos. Em certos casos, a proximidade atingiu níveis próximos ao que se poderia chamar de adoção.
Os achados abrem novas perspectivas para entender a origem dos animais de estimação. A análise sugere que alguns dos comportamentos que hoje sustentam os vínculos entre humanos e pets podem ter raízes evolutivas muito anteriores à própria história da humanidade — presentes nos primatas que são nossos parentes evolutivos mais próximos.
Publicado na revista Primates, o estudo é a primeira revisão sistemática dedicada especificamente às interações sociais entre primatas não humanos e animais de outras espécies. Para construir a base de dados, os pesquisadores reuniram informações de artigos científicos, fotografias, vídeos e questionários enviados a cerca de 250 especialistas — dos quais 37 responderam. Ao todo, foram incluídas 88 espécies de primatas e 127 espécies parceiras, entre elas aves, répteis, cães e gatos.
Os animais de estimação podem representar o resultado mais elaborado de uma tendência muito mais antiga: a capacidade dos primatas de, em determinadas circunstâncias, ultrapassar as fronteiras sociais estabelecidas pela própria espécie.
Uma ressalva importante antes de avançar
A descoberta não significa que macacos criem pets da mesma forma que os seres humanos. Os próprios autores do estudo fazem questão de deixar isso claro: a maioria das interações registradas foi de curta duração, enquanto a relação humana com um animal de companhia normalmente implica convivência prolongada e investimento contínuo de tempo e recursos. O que interessa à pesquisa é identificar os possíveis "ingredientes" evolutivos para a formação desse tipo de vínculo — não afirmar que macacos têm gatos de estimação.
Como a relação entre humanos e pets começou
A convivência dos seres humanos com outras espécies não teve início dentro de casa. Ao longo de milênios, diferentes animais foram incorporados à vida humana por razões práticas: caça, proteção, transporte e alimentação. Em determinado momento histórico, no entanto, algumas dessas relações passaram a incluir componentes de companhia e apego — e foi aí que surgiu o que hoje reconhecemos como animal de estimação.

Determinar exatamente quando isso ocorreu ainda é um desafio. Registros arqueológicos indicam que humanos já mantinham vínculos próximos com cães há pelo menos alguns milhares de anos. Mas a pesquisa coloca uma questão anterior: e se os comportamentos necessários para estabelecer esse tipo de relação fossem muito mais antigos do que qualquer evidência arqueológica?
É nesse ponto que os primatas ganham relevância para a investigação. Por serem os parentes evolutivos mais próximos da espécie humana, funcionam como uma janela para comportamentos que podem ter existido antes mesmo do surgimento das primeiras sociedades humanas.
Como o estudo foi feito
Para montar a base de dados, os pesquisadores realizaram buscas sistemáticas na literatura científica, examinaram imagens e vídeos publicamente disponíveis e consultaram especialistas de todo o mundo. Dos 427 registros coletados, 303 vieram de publicações científicas, 58 de fotografias e vídeos, e 66 das respostas ao questionário.
Os episódios aconteceram tanto em habitats naturais quanto em ambientes de cativeiro. A maioria foi registrada na natureza: 311 casos contra 111 ocorrências em espaços sob cuidado humano. Entre as interações em ambiente silvestre, algumas envolveram espécies domesticadas que habitavam regiões próximas a comunidades humanas — principalmente cães, além de gatos e porcos.
O que os primatas fizeram — e com que frequência
Os comportamentos observados foram organizados em 17 categorias. As brincadeiras lideraram o levantamento, com 139 registros, seguidas pela catação, com 136 ocorrências. Também foram identificados contato corporal, proximidade voluntária, abraços, carregamento de animais de outra espécie, compartilhamento de alimentos e até amamentação.
Um dado adicional chamou a atenção: nos casos em que foi possível determinar qual animal iniciou a interação, os próprios primatas assumiram esse papel em 66% das situações. Das 219 interações com essa informação disponível, em 144 delas o primata tomou a iniciativa. Apenas três foram provocadas pelo outro animal.

A idade e o sexo dos primatas também influenciaram os padrões de comportamento. Filhotes e jovens apareceram com mais frequência nas brincadeiras; fêmeas adultas demonstraram maior inclinação a comportamentos afiliativos, especialmente a catação; e os machos adultos foram, no conjunto, menos afiliativos.
Os casos que mais chamaram a atenção
Brasil — Macacos-prego e o filhote de sagui: um filhote de sagui foi acolhido por um grupo de macacos-prego e permaneceu junto ao grupo por pelo menos dez meses. Duas fêmeas assumiram, de forma sucessiva, comportamentos maternos em relação ao filhote, enquanto os demais integrantes do grupo toleraram a presença dele.
Israel — Macaco-de-crista e a galinha: em um zoológico, um macaco-de-crista passou a apresentar comportamentos afiliativos e protetores em relação a uma galinha, estabelecendo com ela uma relação de proximidade continuada.

Há ainda registros de primatas desenvolvendo interações recorrentes com cães, aves, cervos e outros animais. Para os pesquisadores, esses episódios não equivalem à relação que uma pessoa estabelece com o próprio cachorro ou gato — mas contribuem para identificar quais comportamentos podem ser relevantes para compreender como vínculos entre espécies distintas se formam.
O que a pesquisa revela — e o que não revela
Um dos pontos centrais do estudo é demonstrar que interações positivas entre espécies diferentes não são um traço exclusivamente humano. Tolerância, brincadeira, cuidado e exploração podem emergir mesmo entre animais de espécies distintas.
Isso, porém, não equivale a dizer que existe entre outros primatas uma versão do hábito humano de criar pets. Os autores são explícitos: a maioria dos episódios analisados foi passageira. A relação com um animal de companhia, por sua natureza, envolve convivência prolongada e dedicação contínua.
Há ainda outros fatores a considerar. Uma interação entre espécies pode ocorrer por razões que nada têm a ver com companhia: disputa ou partilha de recursos, busca por proteção, exploração de um indivíduo desconhecido. Em ambientes de cativeiro, a proximidade pode simplesmente resultar do fato de os animais habitarem o mesmo espaço físico.
Os pesquisadores também reconhecem uma limitação metodológica relevante: parte dos registros foi obtida de fotografias, vídeos e relatos públicos, o que pode superrepresentar situações raras e visualmente chamativas. Por isso, a base de dados não deve ser usada para estimar a frequência real dessas interações entre primatas.
Um ponto de partida, não uma resposta definitiva
Por todas essas razões, a pesquisa é apresentada como um ponto de partida para novas hipóteses — não como uma conclusão fechada sobre a origem dos animais de estimação. Em vez de tentar localizar o momento exato em que surgiu o primeiro pet, os autores propõem investigar comportamentos mais fundamentais que podem ter contribuído para esse processo: a disposição para brincar com um indivíduo de outra espécie, tolerá-lo, cuidar dele e manter proximidade física.
Esses comportamentos podem ter se desenvolvido muito antes do surgimento das sociedades humanas que vieram a domesticar outras espécies. E é exatamente aí que a pesquisa encontra seu significado mais amplo: ao sugerir que o pet moderno — com toda a complexidade afetiva que envolve a relação entre humanos e animais — pode ser o desdobramento mais sofisticado de uma tendência evolutiva antiga, enraizada muito antes do que qualquer registro histórico é capaz de alcançar.





