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Coluna   Psicologia & Pet

Psicóloga Isabel Araujo

A crueldade humana e o silêncio que não podemos aceitar

Por: Isabel Araujo

Casos recentes, como o homem que matou um cachorro a tiros em Magé e o que enterrou um pitbull vivo em Curitiba, escancaram algo que vai além do choque momentâneo: a capacidade humana de produzir crueldade, especialmente contra seres indefesos.

Foto: Reddit

Como jornalista e psicóloga, escrever sobre violência contra animais nunca é apenas relatar fatos — é tocar em uma ferida social profunda. Casos recentes, como o homem que matou um cachorro a tiros em Magé e o que enterrou um pitbull vivo em Curitiba, escancaram algo que vai além do choque momentâneo: a capacidade humana de produzir crueldade, especialmente contra seres indefesos.


É preciso afirmar com clareza: nenhum contexto justifica a agressão. Maus-tratos e negligência são crimes, violações éticas e morais que exigem responsabilização. Ao mesmo tempo, compreender não é o mesmo que absolver. A psicologia nos ensina que comportamentos violentos podem estar associados a estresse extremo, impulsividade, falhas graves de empatia ou até transtornos mentais — mas reconhecer possíveis fatores não diminui a gravidade do ato, nem transfere a culpa para a circunstância. A responsabilidade permanece.


Animais dependem integralmente do cuidado humano. Quando esse cuidado se transforma em violência, o que se rompe não é apenas um vínculo, mas um pacto civilizatório básico: o de proteger quem não pode se defender. A crueldade contra animais é, muitas vezes, um marcador de risco social. Ela sinaliza intolerância à frustração, dessensibilização ao sofrimento e dificuldade de reconhecer o outro como sujeito de valor — traços que, quando ignorados, tendem a escalar. Há também o papel do silêncio. Cada agressão que não é denunciada, cada normalização do “foi um surto” ou do “era só um animal” amplia o espaço para a repetição da violência. Denunciar é um ato de cuidado coletivo; punir, um dever do Estado; educar, uma urgência.


Falar desses casos não é alimentar o horror — é interrompê-lo. É lembrar que saúde mental não é álibi para brutalidade e que empatia se mede, sobretudo, pela forma como tratamos os mais vulneráveis. Entre o humano que fere e o animal que sofre, a sociedade precisa escolher, sem ambiguidade, o lado da proteção.

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