Crueldade por Likes: como desafios on-line estão transformando animais em vítimas
Em grupos fechados da internet, usuários incentivam maus-tratos contra animais para ganhar status e reconhecimento. Autoridades investigam comunidades virtuais que promovem desafios de crueldade

A busca por curtidas, reconhecimento e notoriedade em comunidades digitais está levando a um fenômeno alarmante: desafios on-line que incentivam violência contra animais (e também crianças). Em grupos fechados da internet, atos de crueldade são filmados, transmitidos e compartilhados como se fossem provas de coragem ou entretenimento.
O problema tem preocupado autoridades e especialistas. Investigações policiais e organizações de proteção animal passaram a monitorar essas comunidades digitais, onde agressões são incentivadas e replicadas como parte de uma dinâmica de competição entre os participantes.
Nos últimos anos, investigações policiais identificaram comunidades virtuais onde atos de crueldade são gravados, transmitidos ao vivo ou utilizados como requisito para ingresso em determinados grupos. Em muitos casos, os próprios membros propõem novos desafios, criando uma cadeia de violência que se espalha pelas redes.
Um episódio recente trouxe o tema para o centro do debate público: a morte do cão Orelha, em Florianópolis. O caso expôs uma realidade que já vinha sendo monitorada pelas autoridades — a existência de comunidades digitais dedicadas à transmissão ao vivo de cenas extremas de crueldade contra cães e gatos.
Investigações da Polícia Civil de São Paulo apontam que grupos com centenas de integrantes incentivam a violência em troca de prestígio dentro das plataformas, muitas delas de acesso aberto, inclusive para crianças e adolescentes.
Especialistas também alertam para um fenômeno conhecido como zoosadismo, quando uma pessoa sente prazer em assistir ou praticar crueldade contra animais. Esse comportamento é considerado um forte indicativo de tendência à violência e, em muitos casos, precede práticas ainda mais graves.
Violência estimulada em redes e grupos fechados
Nesses ambientes virtuais, a lógica é brutal: quanto mais violento é o ato, maior é o status do agressor dentro da comunidade.
De acordo com o delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Artur Dian, a situação chega a níveis extremos, com usuários sendo recompensados por ações como matar ou escalpelar os próprios animais de estimação.
Muitos participantes são recrutados por meio de redes sociais ou jogos online e acabam integrando comunidades radicais. Uma delas ficou conhecida como COM/764, grupo voltado à radicalização violenta colaborativa e que incentiva práticas criminosas como abuso sexual infantil, estupros virtuais e violência extrema contra animais.
Crescimento preocupante de ocorrências
Os dados indicam que o problema está se ampliando rapidamente.
Um levantamento da Polícia Civil de São Paulo mostra que casos de maus-tratos desse tipo cresceram 120% entre 2024 e 2026.
Já em 2024, a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos registrou 1.906 notificações de maus-tratos a animais na internet. As ocorrências envolveram plataformas como Telegram, Instagram, TikTok, X e YouTube, em 16 países diferentes.
O crescimento preocupa especialistas porque a violência não apenas aumenta, como também tende a evoluir para outras formas de agressão dentro da sociedade.
Um fenômeno que estava oculto
Embora esses crimes pareçam recentes, especialistas afirmam que o problema não surgiu agora.
O que mudou foi a visibilidade. A violência contra animais em ambientes digitais vem crescendo e se intensificando nos últimos anos, e práticas desse tipo já circulam em redes sociais há pelo menos um ano e meio.
O caso do cão Orelha acabou funcionando como um gatilho para trazer o assunto ao conhecimento da população.
O submundo digital da crueldade
Comunidades on-line incentivam tortura e morte de animais
A morte do cão Orelha pode ser consequência de um fenômeno mais amplo: a radicalização em comunidades digitais que incentivam violência extrema.
Especialistas que atuam em núcleos de combate ao crime digital explicam que tortura e morte de animais se tornaram práticas recorrentes em alguns grupos da internet, muitos deles frequentados por crianças e adolescentes.
Casos registrados em diferentes estados brasileiros indicam um padrão semelhante: jovens ou adultos gravando atos de maus-tratos e compartilhando os vídeos em grupos privados.
Segundo investigadores, muitas dessas comunidades utilizam plataformas de comunicação em tempo real, onde transmissões e vídeos podem ser disseminados rapidamente entre os participantes.
Em determinados ambientes virtuais, usuários lançam desafios para que outros membros cometam agressões contra animais domésticos ou silvestres. Quanto mais chocante for o ato, maior a repercussão dentro do grupo.
A delegada Lisandréa Salvariego afirma que a interação nesses servidores pode ser intensa, com audiências que variam entre 600 e 800 pessoas, muitas vezes incentivando atos progressivamente mais violentos.
A lógica dos desafios
Especialistas apontam que a dinâmica desses grupos se assemelha à de outros desafios perigosos da internet, nos quais a busca por notoriedade e pertencimento estimula comportamentos extremos.
Segundo Filipe Brandão, muitos adolescentes são aliciados em jogos on-line e pressionados a cumprir desafios violentos para ganhar reconhecimento.
