

Quando o agressor usa o animal para machucar a família
Por: Patrick Araujo
O animal é considerado por muitos como um membro da família. E justamente por reconhecer esse vínculo afetivo, alguns agressores encontram no animal uma forma de exercer poder sobre suas vítimas.
Por Patrick Araujo – Médico-veterinário e Perito Judicial
Quando pensamos em violência doméstica, normalmente imaginamos agressões dirigidas ao cônjuge, aos filhos ou a outros integrantes da família. Raramente lembramos que, dentro de muitas casas, existe outra vítima silenciosa: o animal de estimação.
Infelizmente, essa realidade é mais comum do que parece.
Diversos estudos internacionais têm demonstrado uma forte relação entre a violência praticada contra animais e a violência intrafamiliar. Em muitos casos, o agressor não machuca o pet por impulso ou crueldade gratuita. Ele o utiliza como uma ferramenta para controlar, intimidar e causar sofrimento emocional às pessoas da casa.
O animal é considerado por muitos como um membro da família. E justamente por reconhecer esse vínculo afetivo, alguns agressores encontram no animal uma forma de exercer poder sobre suas vítimas.
As ameaças costumam começar de maneira silenciosa.
"Se você me denunciar, mato o cachorro."
"Se você sair de casa, nunca mais verá o gato."
"Se chamar a polícia, o próximo será o seu bicho."
Em outras situações, as ameaças deixam de ser palavras e se transformam em atos. O animal é agredido, abandonado ou morto diante dos próprios familiares, como forma de demonstrar que o agressor é capaz de tudo.
Nesses casos, não existe apenas um crime contra o animal. Existe também violência psicológica contra toda a família.
As lesões observadas no animal podem ser apenas uma parte de um contexto maior de violência que também atinge mulheres, crianças, idosos ou outras pessoas em situação de vulnerabilidade.
Por isso, cada vez mais profissionais da Medicina Veterinária são orientados a olhar além do paciente que está sobre a mesa de atendimento. Observar o comportamento do tutor, as circunstâncias da ocorrência e as explicações apresentadas pode contribuir para identificar situações que merecem atenção das autoridades competentes.
Essa integração entre Medicina Veterinária, assistência social, segurança pública e sistema de Justiça já é realidade em alguns países e vem ganhando espaço também no Brasil. A ideia é simples: proteger o animal pode significar proteger também as pessoas que vivem ao seu redor.
A recíproca também é verdadeira. Quando uma equipe policial atende uma ocorrência de violência doméstica, é importante verificar se há animais na residência e em que condições eles se encontram. Afinal, o ciclo da violência raramente escolhe apenas uma vítima.
Ainda precisamos avançar muito nessa área. Nem sempre os protocolos de atendimento contemplam os animais, e muitas vítimas permanecem em silêncio por medo do que possa acontecer com seus companheiros de quatro patas caso decidam romper o relacionamento abusivo.
Essa é uma realidade pouco conhecida pela sociedade, mas extremamente relevante.
Quando protegemos um animal vítima de violência, podemos estar interrompendo um ciclo que ameaça toda uma família.
E talvez essa seja uma das maiores lições que a Medicina Veterinária Legal nos ensina: um laudo não serve apenas para esclarecer como um animal sofreu. Em determinadas situações, ele pode ser o primeiro passo para revelar uma violência que atinge outras vítimas.
Porque, entre leis e patas, defender os animais também é defender as famílias que encontram neles companhia, afeto e segurança. Ignorar o sofrimento de um pet pode significar deixar de enxergar um pedido de socorro que vinha sendo feito em silêncio dentro de um lar.
